Polícia confirma erro e overdose de adrenalina em Benício
A polícia do Amazonas concluiu que o menino Benício, de 6 anos, morreu por erro médico após receber uma overdose de adrenalina. A investigação aponta que a criança recebeu a medicação na veia, em vez de por inalação.
Foram indiciados a médica Juliana Brasil, a técnica de enfermagem Raiza Bentes e diretores do hospital particular Santa Júlia, em Manaus.
Durante a investigação, a polícia analisou o celular da médica, apreendido após a morte do menino. As conversas mostram que, enquanto acompanhava o atendimento de Benício, a médica trocava mensagens sobre a venda de cosméticos e recebia pagamentos via Pix.
O delegado Marcelo Martins afirmou que essas mensagens são uma prova forte de que a médica estava indiferente ao que aconteceria com a criança.
O inquérito também aponta que Juliana tentou se eximir da responsabilidade. Ela apresentou à Justiça um vídeo alegando que o sistema eletrônico do hospital teria trocado automaticamente a forma de administração do medicamento. Uma perícia técnica, no entanto, concluiu que o sistema não apresentou falha.
Além disso, mensagens no celular indicam que a médica ofereceu dinheiro a uma pessoa para gravar um vídeo que sustentasse essa versão. Por isso, além de homicídio doloso com dolo eventual, Juliana vai responder por fraude processual e falsidade ideológica. A polícia constatou ainda que ela se apresentava como pediatra, mesmo sem ter especialização na área.
A médica não foi presa e vai responder ao processo em liberdade. A defesa de Juliana reafirmou que o sistema de prescrição do hospital apresentou problemas, que o vídeo é verdadeiro e que houve falhas na intubação. Sobre a venda de maquiagem, o advogado disse que, naquele momento, Benício não era mais responsabilidade dela.
A técnica de enfermagem Raiza Bentes, que atuava havia apenas sete meses, também foi indiciada por homicídio doloso com dolo eventual. Depoimentos mostram que outra profissional orientou Raiza a aplicar a adrenalina por inalação e deixou um kit de nebulização preparado. Mesmo assim, ela aplicou o medicamento de forma intravenosa, desrespeitando protocolos de segurança, como a dupla checagem. A defesa informou que Raiza está suspensa do exercício profissional e não pretende retornar à atividade.
O inquérito concluiu ainda que o hospital funcionava naquele dia com número insuficiente de enfermeiros e sem farmacêutico para conferir a prescrição. Por essas falhas estruturais, os diretores do hospital Santa Júlia foram indiciados por homicídio culposo. Para a polícia, a prioridade da direção era reduzir custos para aumentar o lucro.
Em nota, o hospital informou que não foi oficialmente comunicado sobre o indiciamento dos diretores, disse que está à disposição das autoridades e reafirmou compromisso com a segurança dos pacientes.
Os pais de Benício disseram estar satisfeitos com as conclusões da polícia e esperam que os responsáveis sejam punidos. Joyce Xavier de Carvalho, mãe do menino, afirmou que os responsáveis precisam ser punidos para que outras crianças e famílias não passem pelo que ela está passando. Médica e técnica de enfermagem podem ir a júri popular.