Serra Verde: ‘lógica clara’ em acordo de R$ 14 bi com EUA
O acordo de US$ 2,8 bilhões (cerca de R$ 14 bilhões) entre a Serra Verde e a USA Rare Earth cria uma operação integrada ao longo da cadeia de terras raras, que vai da mineração à produção de ímãs. Esses ímãs são usados em veículos elétricos, defesa e tecnologia.
A empresa brasileira já recebeu mais de US$ 1 bilhão em investimentos dos Estados Unidos e do Reino Unido ao longo de 16 anos. Ela se consolidou como produtora em larga escala de terras raras pesadas fora da Ásia. Com a combinação dos negócios, a Serra Verde passa a ter acesso a etapas industriais que ainda não operam em escala fora da China.
O acordo prevê contratos de longo prazo, com preços mínimos definidos, em um mercado marcado por volatilidade. A operação inclui um contrato separado de fornecimento por 15 anos, com preços mínimos garantidos. Esse contrato assegura a venda da produção a uma estrutura financiada por recursos públicos e privados dos Estados Unidos.
A operação também é analisada no Supremo Tribunal Federal (STF), com questionamentos sobre controle e soberania dos recursos minerais.
Entrevista com Ricardo Grossi
Ricardo Grossi, presidente da SVPM e COO do Grupo Serra Verde, disse que as duas partes rapidamente reconheceram a lógica de combinar os dois negócios. Segundo ele, isso cria uma empresa com capacidade operacional em toda a cadeia de valor das terras raras leves e pesadas, incluindo mineração, processamento, separação, metalização e produção de ímãs.
Sobre os desafios de estruturar uma operação que integra mineração, tecnologia e indústria em vários países, Grossi afirmou que a empresa combinada será uma líder global. Ela se beneficia de conhecimento em mineração e processamento, além de acesso a tecnologias de ponta em separação, processamento e produção de metais por meio de operações próprias e parcerias estratégicas no Brasil, Estados Unidos, Reino Unido e França.
Perguntado sobre o momento em que a conversa deixou de ser uma parceria para se tornar uma combinação de negócios, ele disse que a decisão foi baseada em uma avaliação aprofundada dos benefícios estratégicos e comerciais, com o objetivo de criar uma plataforma totalmente integrada.
Grossi explicou que o contrato de fornecimento de 15 anos com preços mínimos garantidos foi firmado para abastecer uma Empresa de Propósito Específico (SPV), capitalizada por agências do governo dos EUA e fontes privadas. Ele afirmou que esse contrato é distinto do acordo de combinação entre as empresas. O modelo proporciona fluxos de caixa seguros e previsíveis para a Serra Verde, reduzindo riscos e apoiando investimentos, além de assegurar empregos e investimentos para o Brasil e para Minaçu (GO).
Questionado sobre a participação de governos nas negociações, Grossi negou. Ele disse que o acordo foi alcançado após avaliação aprofundada pelos conselhos de administração e equipes de gestão das duas empresas. Sobre quando perceberam que o acordo avançaria, ele afirmou que a lógica da transação ficou clara desde a fase inicial.
Grossi destacou que a Serra Verde recebeu mais de US$ 1 bilhão em investimentos dos EUA e Reino Unido ao longo de 16 anos, o que permitiu criar o único produtor em grande escala de terras raras pesadas fora da Ásia. A combinação com a USA Rare Earth criará uma empresa maior, com maior escala, diversificação geográfica e sólida posição financeira. Ele afirmou que a Serra Verde terá um papel central nas operações integradas, gerando benefícios para o Brasil, como investimentos adicionais, arrecadação tributária e ampliação de empregos.
O executivo acredita que isso abrirá caminho para outros produtores brasileiros. Sobre a possibilidade de o Brasil se tornar um polo industrial de terras raras, Grossi disse que a Serra Verde já processa minério em um produto intermediário de alto valor em Goiás. Ele afirmou que a capacidade de separar terras raras em escala ainda não existe fora da China, mas a combinação com a USA Rare Earth dá acesso a essa tecnologia. O Brasil continua sendo uma opção para a localização da etapa de separação.
Grossi disse que o país tem base de recursos, estrutura regulatória, profissionais qualificados e infraestrutura para apoiar o avanço além da mineração, mas isso exigirá muitos anos de investimento contínuo. Para que isso aconteça, o Brasil precisará demonstrar um ambiente de negócios atrativo, com apoio fiscal e outras formas de suporte que deem confiança para investimentos de várias décadas.
Sobre a ação no STF, Grossi afirmou que é política da empresa não comentar assuntos políticos ou questões legais em andamento.