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Nolan reacende obsessão por fidelidade histórica

O primeiro trailer de “A Odisseia”, novo filme de Christopher Nolan, gerou uma enxurrada de críticas nas redes sociais. A escolha do elenco, a linguagem considerada coloquial e o design das armaduras e figurinos foram alguns dos pontos atacados pelo público. A cena em que Telêmaco, interpretado por Tom Holland, chama Odisseu de “dad” virou meme. Houve ainda reclamações sobre a falta de atores gregos no elenco.

Com orçamento de US$ 250 milhões, a produção reacende o debate sobre o limite da fidelidade histórica e literária em adaptações cinematográficas. Para Henrique Caldeira, historiador e criador do canal Estranha História, a ‘Odisseia’ sempre foi reinterpretada ao longo dos séculos. “Quando foi que ficamos tão obcecados pela historicidade perfeita?”, questiona.

Caldeira lembra que nem mesmo a existência de Homero é certeza entre os historiadores. Alguns acreditam que o nome representa uma escola de pensamento, não um indivíduo. A Guerra de Troia, por sua vez, pode ter sido inspirada em conflitos reais da Idade do Bronze, mas sem a magnitude descrita no poema. O autor original era um aedo, que compunha e cantava poesias já conhecidas na cultura grega.

Detalhes populares, como o cavalo de Troia, não estão na ‘Odisseia’ ou na ‘Ilíada’. Eles aparecem apenas na ‘Eneida’, de Virgílio, escrita séculos depois, já no período romano. “Homero não precisava explicar tudo porque a audiência já sabia das histórias”, explica o historiador.

A professora de roteiro Lorenna Montenegro afirma que manter a integridade do original é desejável, mas a integralidade é impossível. A ‘Odisseia’ tem 12 mil versos, o que não cabe na metragem de um filme comercial. Ela cita três tipos de adaptação: a transposição literal, a inspiração distante e a abordagem intermediária, que resulta em uma obra autoral. “O ponto não é ser fiel à literatura, mas criar um filme que se comunique com o conteúdo original e com o público atual”, diz.

O filme de Nolan não é a única adaptação da ‘Odisseia’. Estima-se que ao menos 50 produções já tenham contado a história. O registro mais antigo é o filme mudo italiano “L’Odissea”, de 1911. Os italianos também foram os principais responsáveis pelo subgênero “espada e sandálias”, ou “peplum”, que fez sucesso entre o fim dos anos 50 e meados dos anos 60.

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