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Jeniffer Nascimento: maternidade e força feminina

Jeniffer Nascimento emendou, em menos de dois meses, os trabalhos nas novelas “Êta mundo melhor!” e “Quem ama cuida”. Depois de viver Dita, a mocinha da trama das 18h, ela agora interpreta Nancy, uma das aliadas da protagonista da história das 21h, Adriana (Leticia Colin).

A atriz disse que teve dois meses entre uma novela e outra. “Vim de uma protagonista, de um volume de cenas gigantesco, de um trabalho intenso. Estava bem cansada, mas só precisava de um mês de férias. Depois dele, já pensava no que faria. Foi um tempo ótimo para poder me despedir da Dita, que é uma personagem com um sotaque muito específico”, afirmou.

A transição para Nancy colocou a atriz diante de uma responsabilidade social diferente de seus trabalhos anteriores na televisão. “A Nancy é um grande desafio: uma mulher com uma carga completamente diferente da Dita e mais real. Mergulhei 100% nesta personagem a partir do momento em que me despedi da Dita. Acho que é a primeira vez que uma novela fala sobre a história de uma mulher que foi presa porque agiu em legítima defesa para se salvar de um feminicídio. Queria tratar isso com muita responsabilidade”, disse.

Jeniffer disse que a investigação prática guiou as escolhas estéticas para o visual das personagens, com unhas pintadas e cabelos arrumados. “Nós masculinizamos muito as mulheres do presídio. A dignidade delas é tirada. Elas usam roupas de homens porque o sistema compra, em larga escala, vestimentas masculinas. Quando vão presas, raramente podem entrar com sutiã, porque pode vir a ser usado como uma arma. Lá dentro, como elas me contaram, ‘você vale o que tem’”, explicou.

Ela pontuou que a manutenção desses detalhes estéticos funcionou como uma demarcação de poder e sobrevivência de uma mulher negra e vaidosa dentro do confinamento. “A Nancy não escolheu se envolver em uma atitude criminosa. Ela reagiu a uma tentativa de feminicídio. Trazer a Nancy de unhas pintadas dentro do presídio representa poder. Na segunda fase, teremos ela de cabelo solto e luminoso, o que representa uma liberdade dupla”, disse.

O convite para integrar o elenco de “Quem ama cuida” também representou a quebra de um ciclo profissional de mais de uma década. “Em 12 anos na Globo, nunca havia feito uma novela das 21h. Sempre almejei fazer. É a trama com mais alcance no país. É uma personagem com uma carga dramática completamente diferente. Por muito tempo, estive em uma caixa na televisão de um certo humor. Antes da Dita, fiz muitas melhores amigas da protagonista com um teor cômico”, afirmou.

A atriz reconheceu que o retorno ao papel de coadjuvante gerou questionamentos internos iniciais. “Confesso que, num primeiro momento, o meu ego questionou o lugar. Passei muitos anos da minha carreira tentando ter uma chance de ser protagonista, como aconteceu com a Dita. No papel seguinte, voltei a ser a melhor amiga da protagonista. Concluí que a história e a missão eram muito maiores do que o ego”, disse.

A bagagem emocional para o papel foi transformada pela experiência pessoal da atriz fora das telas. Mãe de Lara, de 2 anos, Jeniffer identificou a maternidade como divisor de águas. “Quando escolhi esta profissão, entendi que havia muitos lugares que não eram pensados para pessoas como eu. Para conseguir estar nesses espaços, precisei ser excepcional e correr muito. Durante muito tempo, quando chegava aos lugares, pedia licença para existir por saber que era a primeira mulher preta a ocupá-lo. A Jeniffer depois da maternidade parou de pedir licença”, afirmou.

Jeniffer, que terminou o casamento de 11 anos com o ator Jean Amorim em 2025, encara a fase de solitude como um resgate da individualidade e dos desejos. “É um momento de muita inteireza, de entender o tamanho da minha potência. O racismo traz muitas questões à nossa autoestima. Hoje, consigo ver claramente minhas virtudes. Ao sair de uma relação, isso acaba potencializando o movimento de voltar a olhar para si. As escolhas são movidas pelo que você deseja, não mais coletivas”, disse.

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