Brasileiros perdem R$ 20 mil em passagens da Flybondi
Passageiros relatam prejuízo e falta de assistência após comprar passagens da Flybondi
O professor e funcionário público Willian Lago, 52, comprou uma viagem para a filha de 15 anos conhecer a neve em Bariloche, na Argentina. O presente, porém, terminou em um prejuízo estimado em R$ 20 mil, segundo ele, que culpa a companhia aérea argentina Flybondi.
Conhecida pelas passagens baratas para destinos argentinos, a empresa do modelo “ultra low-cost” tem acumulado reclamações de consumidores, muitos deles brasileiros. Nesta quarta-feira (29), a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) anunciou que limitou a venda de passagens da Flybondi após uma onda de cancelamentos de voos no Brasil. Entre 1º e 27 de julho, a empresa teria cancelado 79% das viagens programadas.
A medida administrativa cautelar passou a valer nesta quarta, mas não afeta as passagens que já foram emitidas. Procurada por email, a aérea não respondeu até a publicação desta reportagem.
No caso de Lago e da esposa Patrícia Mesquita, 43, também professora da rede pública, os preços baixos vieram com problemas. Os dois e as duas filhas ficaram “ilhados” em Bariloche após mudanças repentinas de horário e, depois, de data do voo. Eles deveriam ter retornado no dia 28 de julho, o que não aconteceu. A Flybondi transferiu a data para o dia 29.
A família, no entanto, teve de deixar o Airbnb no dia que havia sido previamente planejado, às 8h. Quando saíram da hospedagem temporária, receberam email avisando que o voo de volta havia sido cancelado. “Nós ficamos sem abrigo em uma cidade com uma variação térmica que estava dando menos cinco [graus] e com uma máxima de um grau”, disse o professor.
A Flybondi não respondeu às tentativas de contato, segundo Lago. “Todas foram respondidas sempre por mensagens automáticas que recebemos tanto no site deles quanto por email”, afirmou. A família seguiu para o aeroporto de Bariloche para tentar resolver o problema pessoalmente, mas não encontrou nenhum representante da aérea. Havia apenas um funcionário do próprio aeroporto, que informou que a empresa vinha trabalhando com dificuldades financeiras e cancelamentos.
A companhia argentina enfrenta uma série de reclamações de clientes nas redes sociais. Em publicações sobre destinos turísticos da Argentina, consumidores pedem o reembolso e reclamam sobre o cancelamento e reagendamento de voos sem aviso prévio. “Quero meu reembolso. Perdi muito dinheiro com o cancelamento do voo”, escreveu um consumidor. “Saí do Brasil para Buenos Aires, lá reprogramaram [o outro voo] e depois cancelaram o voo seis vezes. Perdi o dinheiro no Airbnb também”, escreveu outro.
A nutricionista Giselly Mendonça, 29, está com um voo comprado para o domingo (2) para Buenos Aires saindo do Rio de Janeiro. O voo de ida, que inicialmente deveria acontecer no sábado (1º), foi remarcado para o domingo, às 7h. Depois, para as 10h50. O problema maior estava na volta de Bariloche para Buenos Aires, que deveria acontecer às 18h. Foi adiada para as 20h25, cinco minutos depois do horário de partida do voo de volta ao Brasil.
A brasileira Júlia Rodrigues, moradora de Buenos Aires, reservou hotel e passeios com a mãe após comprar uma passagem da Flybondi para Bariloche. Uma semana antes do voo, as passagens foram adiadas para três horas depois do previsto. Depois, a viagem foi postergada em dois dias, o que as fariam perder o passeio. Ela e a mãe decidiram comprar uma passagem de outra companhia aérea e, por conta da proximidade da data, pagaram quase o dobro do preço. Júlia diz ter pouca esperança de ser reembolsada.
A Anac afirma ter detectado “indícios de deterioração da capacidade operacional da companhia” e riscos de prejuízos aos passageiros. Caso a aérea argentina não faça ajustes, a rota Buenos Aires e Rio de Janeiro, no Aeroporto do Galeão, também será suspensa, a partir de segunda-feira (3). Além disso, a Flybondi está impedida de ampliar sua rede de rotas no Brasil, e a venda de passagens para destinos como Salvador, Florianópolis e Maceió foi suspensa.
A agência disse que solicitou dados à companhia e aguarda sua manifestação sobre o quantitativo de bilhetes comercializados e de consumidores afetados. Passageiros com problemas não resolvidos podem registrar reclamação na plataforma Anac Passageiro. A manifestação será encaminhada à Flybondi, que terá o prazo de até dez dias corridos para apresentar resposta.