Anvisa mantém suspensão de produtos Ypê
A diretoria colegiada da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) decidiu nesta quinta-feira (15/5) manter parte das restrições contra produtos da marca Ypê. A decisão foi tomada após a agência identificar falhas sanitárias consideradas “graves e sistêmicas” na fábrica da empresa em Amparo, no interior de São Paulo.
Com a decisão, a fabricação, comercialização, distribuição e o uso dos produtos afetados continuam suspensos. O recolhimento dos produtos, porém, segue temporariamente suspenso até que a empresa apresente um plano estruturado de mitigação de riscos e rastreabilidade, que precisa ser aprovado pela Anvisa.
Durante o julgamento, diretores da Anvisa detalharam parte das irregularidades encontradas na fábrica. De acordo com o diretor Daniel Pereira, os problemas incluem deficiência no controle de garantia da qualidade, ausência de validação de processos e métodos analíticos, monitoramento microbiológico inadequado, fragilidade na rastreabilidade e segregação de produtos não conformes, além de falhas na adoção de ações corretivas eficazes.
Pereira afirmou ainda que a própria empresa reconheceu a existência de mais de 100 lotes com resultados microbiológicos insatisfatórios. Segundo a Anvisa, a fábrica trabalha atualmente para implementar 239 ações corretivas relacionadas a exigências sanitárias identificadas em inspeções realizadas ao longo de 2024 e 2025.
Os diretores da Anvisa afirmaram repetidamente que a decisão foi baseada em critérios técnicos e sanitários, e não políticos. “Não pautamos e nunca pautaremos em critérios políticos, mas sim na responsabilidade que temos com a sociedade”, disse Pereira durante seu voto.
Origem do caso e histórico microbiológico
A Anvisa confirmou que recebeu denúncias da Unilever contra a Química Amparo, dona da Ypê, por meio do sistema Fala BR, canal oficial de ouvidoria da agência. A Unilever não solicitou anonimato. Apesar das denúncias, a Anvisa afirmou que já havia uma fiscalização previamente programada para abril de 2026 na unidade de Amparo, realizada em parceria com o Centro de Vigilância Sanitária do Estado de São Paulo e a Vigilância Sanitária municipal de Amparo.
A diretora Daniela Marreco afirmou que a área técnica constatou que “não se trata de desvios pontuais, mas de um comprometimento sistêmico dos processos produtivos”, configurando “risco sanitário alto”.
Durante a votação, o diretor Daniel Pereira afirmou que houve confirmação da presença da bactéria Pseudomonas aeruginosa em diversos lotes da empresa em 2025. O microrganismo é reconhecido pela resistência antimicrobiana e pode causar infecções, especialmente em pessoas com sistemas imunológicos vulneráveis. A Anvisa ressaltou que a decisão não se baseia apenas na presença de uma bactéria específica, mas no conjunto de falhas sanitárias identificadas ao longo dos últimos anos.
Posição da Ypê e repercussão política
A Ypê afirma que seus produtos são seguros e que vem colaborando com as autoridades sanitárias. A empresa informou que decidiu manter paralisada parte da produção da fábrica de produtos líquidos, independentemente do efeito suspensivo obtido anteriormente, para acelerar a implementação das ações corretivas.
O caso ganhou repercussão política nas redes sociais. Apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro acusaram o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de perseguição contra a empresa, após registros de doações de membros da família controladora da Química Amparo à campanha de reeleição de Bolsonaro em 2022. Segundo dados do TSE, membros da família Beira doaram juntos R$ 1 milhão à campanha do então presidente.
Durante a sessão, a diretora Daniela Marreco respondeu às críticas: “Instaurou-se uma discussão polarizada que não reflete a motivação dessa agência”. Ela afirmou que as ações da Anvisa são fundamentadas em avaliação técnico-científica e visam proteger a saúde da população brasileira.