Anvisa contra Ypê: guerra cultural explode
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informou, nesta segunda-feira 11, que mantém a orientação para que consumidores não usem produtos da marca Ypê fabricados pela Química Amparo, em Amparo, no interior de São Paulo. A agência vai julgar na quarta-feira 13 o recurso da empresa contra a suspensão de lotes.
A recomendação da Anvisa continua sendo a de não utilizar os produtos lava-louças (detergente), sabão líquido para roupas e desinfetante da marca, de lotes com numeração final 1. Em comunicado na sexta-feira 8, a agência reforçou que a empresa deve orientar os consumidores sobre procedimentos de recolhimento, troca, devolução ou ressarcimento pelo Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC).
A Ypê informou que colabora integralmente com a Anvisa. A empresa disse que realiza análises técnicas e avaliações complementares, com testes e laudos independentes, que são apresentados às autoridades. A companhia também se comprometeu a incorporar recomendações da agência ao seu Plano de Ação e Conformidade Regulatória, desenvolvido desde dezembro de 2025.
Uma reportagem do Fantástico, da TV Globo, mostrou imagens anexadas ao relatório da inspeção da Anvisa. As fotos exibem equipamentos com sinais de corrosão usados na fabricação de detergentes e lava-roupas líquidos. O documento também destacou o estado do tanque de manipulação de produtos para lavar louças e flagrou restos de produtos armazenados e devolvidos às linhas de envase.
Segundo o relatório, a empresa registrou resultados fora da especificação microbiológica em 80 lotes de produtos acabados, com testes positivos para a bactéria Pseudomonas aeruginosa entre dezembro de 2025 e abril de 2026. Os lotes não foram reprovados pelo controle de qualidade e permaneciam armazenados aguardando “definição financeira”. A inspeção concluiu que as irregularidades configuram “um quadro crítico, caracterizado como de risco sanitário elevado”.
O caso rapidamente se tornou pauta política. Integrantes da direita passaram a espalhar nas redes sociais a tese de que a medida da Anvisa seria uma perseguição do governo Lula contra a Ypê, por causa de doações de membros ligados à empresa à campanha de reeleição de Jair Bolsonaro em 2022. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, integrantes da empresa doaram 1 milhão de reais à campanha do ex-presidente.
Apoiadores de Bolsonaro publicaram vídeos nas redes sociais afirmando, sem provas, que “o Estado usa as autoridades para arruinar financeiramente os oponentes”. Alguns bolsonaristas também simularam beber detergente da marca em apoio à empresa. O vice-prefeito de São Paulo, Ricardo Mello Araújo, publicou um vídeo lavando louça com detergente Ypê e convocou seguidores a comprarem os produtos. O senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) levantou suspeitas sobre a relação entre o caso e as doações à campanha de Bolsonaro.