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Bem-estar

Tendinite calcária no ombro: por que dói tanto e quando o cálcio some sozinho

A tendinite calcária no ombro tem fases; a mais dolorosa é a que anuncia que o depósito começou a sair.

Por · · 6 min de leitura
Médico examinando uma radiografia contra a luz da janela em um consultório

Médico examinando uma radiografia contra a luz da janela em um consultório

A dor chega de madrugada, sem queda e sem esforço, e em poucas horas o braço não sobe nem para pentear o cabelo. No pronto-socorro, a radiografia mostra uma mancha branca sobre o tendão, e o diagnóstico vem com um nome que confunde: tendinite calcária no ombro. A palavra "calcária" faz muita gente pensar em osso crescendo ou em cálcio demais no sangue. Não é nenhuma das duas coisas.

Trata-se de um depósito de cristais de cálcio no interior do tendão do manguito rotador, quase sempre no supraespinhal. Um médico que trata o ombro explica que o depósito se forma devagar, pode ficar meses sem doer e provoca a crise justamente quando começa a ser reabsorvido pelo corpo. A fase mais dolorosa é, paradoxalmente, a que anuncia o fim.

Como o cálcio vai parar dentro do tendão

Ninguém sabe ao certo por que isso acontece. A hipótese mais aceita é que uma parte do tendão, com pouco suprimento de sangue, sofre uma transformação das células, que passam a produzir cristais de cálcio. Não tem relação com dieta, com suplemento de cálcio nem com o cálcio do sangue.

O problema atinge mais mulheres do que homens, entre os 30 e os 50 anos, e é mais frequente em quem tem diabetes ou alterações da tireoide. Em boa parte dos casos, o depósito é descoberto por acaso, numa radiografia pedida por outro motivo.

O depósito pode medir de poucos milímetros a mais de dois centímetros. O tamanho não define a dor: um depósito grande e duro pode incomodar pouco, e um pequeno em fase de reabsorção pode ser insuportável.

Tendinite calcária no ombro: as fases e o que muda em cada uma

A tabela resume as fases da doença, como a dor se comporta e o que costuma ser feito.

FaseO que aconteceDorConduta comum
FormaçãoCélulas do tendão passam a produzir cálcioAusente ou leveNenhuma, muitas vezes nem é descoberta
RepousoDepósito duro, tipo giz, estável por meses ou anosAo levantar o braço, por compressãoFisioterapia, ondas de choque
ReabsorçãoDepósito amolece, tipo pasta de dente, e o corpo o removeIntensa, súbita, com o braço travadoAnalgesia forte, infiltração, aspiração guiada
ReparoTendão cicatriza no lugar do depósitoDiminui em semanasFisioterapia para recuperar movimento
CrônicaDepósito não é reabsorvido e segue comprimindoPersistente há mais de 6 mesesAspiração ou cirurgia por artroscopia

O que fazer na crise aguda

Quando a dor chega de forma súbita e o braço trava, o roteiro das primeiras 72 horas é este:

  1. Procure atendimento: a dor da fase de reabsorção costuma exigir analgésico de prescrição, e não passa com o remédio da gaveta.
  2. Faça a radiografia. Ela confirma o depósito e mostra se ele está difuso, sinal de reabsorção.
  3. Use gelo por 15 minutos, várias vezes ao dia, com o braço apoiado num travesseiro.
  4. Deixe o braço em tipoia só nos momentos de dor intensa, e tire para movimentos leves de pêndulo.
  5. Se a dor não ceder em dois ou três dias, a infiltração com corticoide na bursa alivia em horas.
  6. A aspiração do depósito guiada por ultrassom pode ser feita na mesma fase, quando ele está amolecido.

Por que a dor da reabsorção é tão forte

Na fase de reabsorção, o depósito aumenta de volume ao absorver água, e o tendão incha dentro do túnel estreito sob o acrômio. Ao mesmo tempo, cristais escapam para a bursa e provocam uma inflamação química intensa. É uma dor que muitos pacientes comparam à de uma fratura.

O lado bom é que essa fase é curta: de duas a seis semanas. Depois dela, na maior parte dos casos, o depósito desaparece e o tendão cicatriza sem deixar sequela. Muitos pacientes que passaram pela crise contam que, meses depois, o ombro voltou a ser igual ao outro, e a radiografia de controle não mostra mais nada.

Tratamentos que funcionam fora da crise

Na fase de repouso, quando o depósito é duro e incomoda ao levantar o braço, a fisioterapia com fortalecimento do manguito e correção do ritmo da escápula reduz a compressão. O tratamento com ondas de choque extracorpóreas fragmenta o cálcio em parte dos casos, com boa resposta em sessões semanais por um a dois meses.

Já a aspiração guiada por ultrassom, chamada barbotagem, lava o depósito com soro e agulha e costuma ser indicada quando ele está amolecido. É feita em consultório, com anestesia local, e a melhora é rápida.

Quando a cirurgia entra

Operar fica para o depósito que não reabsorve, mantém dor há mais de seis meses e não respondeu a fisioterapia, ondas de choque e aspiração. Ela é feita por artroscopia: o cirurgião remove o cálcio, limpa a bursa e, quando necessário, repara o tendão no ponto onde o depósito deixou um defeito.

A recuperação leva de seis semanas a três meses. A maioria dos pacientes não chega a esse ponto, porque a doença tende a se resolver sozinha ou com os tratamentos menores.

Como diferenciar de outras causas de dor no ombro

Na tendinite comum, a dor ao erguer o braço piora aos poucos. Já a ruptura do tendão vem com fraqueza, e a capsulite adesiva trava o ombro em todas as direções, sem depósito no exame. O que mais distingue a forma calcária é o depósito visível na radiografia somado à crise súbita sem trauma.

Também precisa ser separada da gota, da infecção articular e da dor irradiada da coluna cervical, o que o exame clínico e, quando necessário, os exames de sangue resolvem.

Perguntas frequentes sobre tendinite calcária no ombro

Tendinite calcária no ombro tem cura?

Tem. Na maioria dos casos o depósito é reabsorvido e o tendão cicatriza. Uma minoria precisa de aspiração ou cirurgia.

Preciso cortar cálcio da alimentação?

Não. O depósito não tem relação com a dieta nem com o cálcio do sangue.

Quanto tempo dura a crise?

De duas a seis semanas. Com infiltração ou aspiração, a dor forte costuma ceder em dias.

Tendinite calcária aposenta?

Em regra, não. A doença costuma se resolver e o trabalhador volta à função. Casos crônicos podem gerar afastamento temporário.

A sessão de ondas de choque dói?

Incomoda durante a aplicação, mas é tolerável e feita sem anestesia. A resposta aparece após algumas sessões.

O cálcio pode voltar depois de sair?

É raro no mesmo tendão. Pode aparecer no outro ombro, o que acontece em uma parte dos pacientes.

Resumo

Tendinite calcária no ombro é um depósito de cálcio dentro do tendão do manguito rotador, sem relação com dieta, que dói mais quando começa a ser reabsorvido. A crise é curta e responde a analgesia, infiltração e aspiração guiada. Fisioterapia e choque extracorpóreo tratam a fase estável, e a cirurgia por artroscopia fica para o depósito que persiste com dor por mais de seis meses.

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