IA causa terremoto nas eleições de 2026
O uso de inteligência artificial já altera as campanhas eleitorais de 2026. Com ferramentas de IA, equipes enviam mensagens cada vez mais segmentadas, marqueteiros substituem pesquisas qualitativas por “eleitores sintéticos” para testar mensagens, e vídeos que antes levavam um dia e meio para ficar prontos agora são finalizados em poucas horas.
Segmentação e monitoramento
As campanhas também enfrentam dúvidas sobre a resolução do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) que limita o uso de IA. Está claro que deepfakes eleitorais, vídeos e áudios não autorizados que imitam candidatos ou outras figuras públicas, estão proibidos. Mas a legalidade de alguns recursos ainda é incerta.
A Folha conversou com integrantes das equipes de Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), pré-candidatos à Presidência, de Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Fernando Haddad (PT), pré-candidatos ao governo de São Paulo, e de deputados federais e estaduais. Alguns pediram para não ser identificados, dizendo que são informações estratégicas.
Uma das campanhas majoritárias tem uma equipe de 54 pessoas dedicadas ao impulsionamento com nanosegmentação. A campanha consegue personalizar uma mensagem do candidato para, por exemplo, atingir mulheres da zona oeste de São Paulo sem plano de saúde e com chance de passar a apoiar o político.
Softwares de IA monitoram a “sentimentalização” – como as contas de redes sociais reagem a cada conteúdo. Milhões de perfis são “tagueados” para mapear temas que mais repercutem e como os conteúdos do candidato e dos concorrentes ressoam. Todas as campanhas destacam, porém, que é importante ter humanos no contato direto com eleitores, porque as pessoas não gostam de interagir com robôs.
Uma campanha quis saber a repercussão do embate entre Romeu Zema, pré-candidato do Novo à Presidência, com o STF (Supremo Tribunal Federal). Em cinco segundos, foi possível mapear nas redes sociais potenciais detratores e apoiadores, as teses principais e sugestões de resposta.
Uso de IA para treinamento e criação
Todas as principais pré-candidaturas têm IAs treinadas com discursos, reportagens, entrevistas e materiais do candidato e dos rivais. “A IA vai ‘aprendendo’ o tom do discurso do candidato, suas expressões, como ele se posiciona em relação a temas”, diz Nara Alves, sócia-diretora da Ela Marketing Político. Isso é usado nos briefings e roteiros, definindo o que seria adequado para falar em determinada cidade. Também são criadas versões do candidato mais irônico, sério ou agressivo, e depois testa-se o que funciona melhor com software de “social listening”.
Bruno Bernardes, sócio da PLTK, agência do marqueteiro Pablo Nobel, responsável pela campanha de Tarcísio, afirma: “A IA vem revolucionando cada processo das campanhas, da criação de conteúdo à segmentação de mensagens e mobilização de apoiadores.”
Deepfakes e o risco argentino
Os deepfakes, proibidos por resolução do TSE desde 2024, são criticados por todos os marqueteiros. Bernardes lembra a eleição presidencial argentina de 2023 como exemplo de perigo. Vídeos falsos com a ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher contestando Javier Milei e o candidato peronista Sergio Massa cheirando cocaína viralizaram duas semanas antes do segundo turno. As contas que produziram e espalharam esses conteúdos não eram ligadas diretamente aos candidatos.
Para o advogado eleitoral Hélio Silveira, esse deve ser um dos maiores problemas da eleição. Silveira, que trabalhou na campanha da deputada Tábata Amaral (PSB) à Prefeitura de São Paulo em 2024 e na de Fernando Haddad (PT) ao governo em 2022, espera um uso massivo de contas falsas para distribuir mensagens atacando candidatos, muitas delas com IA.
Agilidade na produção de conteúdo
Apesar dos deepfakes serem a face mais visível, é nos bastidores que a tecnologia causa mudanças. A criação de conteúdo ganhou muita agilidade. Um vídeo de Ronaldo Caiado começa com uma imagem de IA de uma bandeira do Brasil levando tiros e sangrando como carne humana. “O Brasil assiste indignado, assustado e impotente à morte de milhares de filhos seus, vítimas da criminalidade”, diz o pré-candidato no vídeo. Segundo o marqueteiro de Caiado, Paulo Vasconcelos, sem IA a peça levaria quatro dias; com IA, demorou algumas horas. Locutores e imagens de apoio foram 100% substituídos por IA.
Durante a campanha, a resolução do TSE exige informar que o conteúdo foi manipulado. Nas 72 horas antes e 24 horas depois do pleito, serão proibidos conteúdos alterados por IA que usem imagem ou voz de candidato ou pessoa pública, mesmo com aviso.
Eleitores sintéticos e pesquisas
Algumas campanhas usam chatbots para economizar com pesquisas qualitativas. O “eleitor sintético” da SVA Solutions–Galaxies cria, com dados de grupos reais de eleitores, perfis que reúnem características de segmentos – como “viúvas do PSDB” ou esquerdistas frustrados com o PT. Esses perfis testam mensagens ou ajudam a gerenciar crises. Andrés Benedykt, marqueteiro do candidato a deputado federal José Dirceu (PT), diz: “Quando temos pouca verba para fazer uma pesquisa ampla e entender como lidar com determinada questão do candidato, é uma opção.” Uma pesquisa qualitativa com mil entrevistados pode custar R$ 150 mil; o eleitor sintético custa R$ 65 mil por mês e pode ser usado a qualquer momento.
Zona cinzenta na customização
Algumas ferramentas geram dúvidas nos departamentos jurídicos. A customização de mensagens com IA, adaptando vídeo ou áudio do candidato para chamar eleitores pelo nome ou mencionar suas cidades, ainda é uma zona cinzenta. Alguns advogados acreditam que, com aviso de uso de IA, autorização do candidato e sem propaganda negativa, não há problema. Outros consideram que isso é deepfake; só seria permitido usar IA para melhorar qualidade de áudio e vídeo. A resolução do TSE veda o uso “para prejudicar ou para favorecer candidatura” de conteúdo sintético em áudio ou vídeo que crie, substitua ou altere imagem ou voz de uma pessoa.
Muitos marqueteiros alertam que certos usos de IA podem sair pela culatra. “Acho arriscado fazer customização com áudio, qualquer estranhamento pode acabar gerando rejeição no eleitor”, afirma o marqueteiro Felipe Pimentel.