Selic a 14%: último corte do ano?
Copom define nesta quarta-feira novo patamar da Selic; mercado aposta em corte para 14%
O Comitê de Política Monetária (Copom) anuncia nesta quarta-feira (5) a nova taxa básica de juros do país, que está em 14,25%. A maioria das apostas no mercado de Opções da B3, cerca de 89,5%, indica uma redução de 0,25 ponto percentual, o que levaria a Selic para 14%. Segundo o Boletim Focus, esse seria o limite para os juros neste ano.
Os que defendem o corte argumentam que os juros estão em um patamar restritivo há um longo período e que a inflação acumulada está se aproximando do teto da meta. Já os que preferem manter a taxa citam as incertezas geradas pelo conflito no Oriente Médio, que pressionam os preços, além da desancoragem das expectativas e do cenário fiscal brasileiro.
Antônio Patrus, diretor da Bossa Invest, faz parte do grupo mais conservador. Ele avalia que não há base para continuar a flexibilização, considerando que o PIB cresceu 1,1% no primeiro trimestre. “O corte precisa ser validado pela inflação. Se houver repique de preços, deterioração cambial ou nova desancoragem das expectativas, esse espaço desaparece rapidamente”, afirma.
Ruídos, clima e inflação
A decisão anterior do comitê deixou o mercado com dúvidas. A Warren Rena classificou o comunicado como uma surpresa “dovish”, já que o Banco Central justificou que focar a meta apenas no final de 2027 evitaria volatilidade excessiva, o que gerou questionamentos sobre o rigor da autarquia. Economistas esperam que a decisão desta semana não crie ruídos semelhantes.
No curto prazo, a inflação tem ajudado. O IPCA-15 de julho veio abaixo do esperado, e bancos como JP Morgan e Itaú destacam que os núcleos sensíveis aos juros atingiram os menores patamares em 12 meses, influenciados pela descompressão global. Por outro lado, a consultoria 4intelligence alerta que o El Niño, já em intensidade expressiva, deve pressionar os alimentos a partir de setembro. O mercado de trabalho permanece aquecido, o que mantém a inflação de serviços em um nível alto.
A situação fiscal também preocupa. O BTG Pactual projeta que a Dívida Bruta chegará a 81,6% do PIB em 2026 e alerta para o aumento das emissões de títulos pós-fixados (LFTs), que já estão perto do limite de 50% do Plano Anual de Financiamento.
Política monetária dos EUA
O cenário internacional também influencia a decisão. Na semana passada, o Federal Reserve manteve os juros dos Estados Unidos em pausa. Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, alerta que um tom mais firme do Fed pode reduzir o diferencial de juros com o Brasil, afastando o capital estrangeiro. Isso pressionaria o câmbio e geraria inflação por meio dos produtos importados. “O tarifaço entra como uma incerteza a mais, porque mesmo sendo um imposto pago dentro dos Estados Unidos, ele pressiona o câmbio, e o câmbio costuma ser justamente o canal que faz a inflação subir aqui”, explica André Matos, CEO da MA7 Capital.
Com essa instabilidade, a ideia de que o ciclo de cortes está no fim ganha força. José Alfaix, economista da Rio Bravo Investimentos, afirma que a desancoragem das expectativas de longo prazo “exige que este seja o último corte”. Felipe Rodrigo de Oliveira, da MAG Investimentos, também projeta que o Banco Central reconhecerá a inflação de longo prazo acima do teto da meta.
Na visão oposta, Arnaldo Lima, economista da Polo Capital, defende que a política restritiva atual já é suficiente para desacelerar a economia. Ele projeta cortes até a Selic chegar a 13,75%. “O processo tende a reduzir gradualmente as pressões salariais e, consequentemente, a inflação de serviços, principal foco de preocupação do Banco Central”, diz Lima, indicando que a queda no rendimento real dos trabalhadores definirá o ritmo das próximas reuniões.
O que esperar para a Selic
As projeções para a taxa final de juros dividem as principais instituições do mercado. A Warren Rena defende em sua análise que a “decisão ideal seria a manutenção da taxa Selic em 14,25%” para evitar ruídos e recuperar a ancoragem das expectativas. A casa alerta que “uma condução mais leniente da política monetária em relação à inflação representaria um risco significativo para a percepção dos agentes econômicos”. Mesmo assim, admite que o corte é o caminho mais provável.
O Morgan Stanley mudou sua posição e agora espera um corte para 14% em agosto. O banco, porém, projeta uma pausa na reunião de setembro, com novos cortes possivelmente apenas em janeiro de 2027. Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Fórum Investimentos, concorda. “Para os próximos meses, minha expectativa é de pausa no ciclo de cortes, em vista de nova alta nos preços do petróleo e das incertezas no Irã”. Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos, diz que a continuidade do ciclo vai depender da inflação corrente, das expectativas, do câmbio e do cenário fiscal.
Leticia Moschioni, sócia da Finscale, acredita que, mesmo com o corte, o Copom deve manter uma postura cautelosa diante dos riscos. O JP Morgan projeta reduções consecutivas, com cortes em agosto e setembro, baseado na hipótese de que a atividade brasileira vai enfraquecer nos próximos meses. O Itaú, seguindo uma linha parecida, estima a Selic em 13,75% no fim de 2026 e espera que o comunicado desta semana tenha um tom de “serenidade e cautela”, sem dar uma sinalização explícita sobre o futuro do ciclo.
“O que está em jogo agora é o tamanho do espaço que o Banco Central ainda tem para cortar juros, e esse espaço ficou mais estreito”, conclui André Matos, CEO da MA7 Capital.