Ministro da Justiça media acordo entre Mendonça e PF
O ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, deixou uma reunião com o advogado-geral da União, Jorge Messias, e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, com a missão de se encontrar com o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, nos próximos dias. O objetivo é tentar chegar a um acordo entre eles. O encontro ocorreu nesta quinta-feira, em meio à crise entre o relator das investigações do caso Banco Master e do INSS e a cúpula da PF.
Ficou combinado que Wellington buscará definir com o chefe da PF as condições para preservar o trabalho dos policiais sem criar ruídos com o relator. A reunião foi articulada às pressas depois que os 27 superintendentes da PF nos estados divulgaram uma nota defendendo a autonomia da corporação. No texto, eles afirmam que a atividade investigativa não se submete a interesses políticos, ideológicos ou pessoais, mas ao cumprimento da lei.
A nota foi uma reação a medidas de André Mendonça nos dois inquéritos que ele comanda. Entre elas, a determinação de que agentes e delegados não repassassem informações sobre as investigações aos superiores hierárquicos e a ordem para que os dados brutos captados na apuração sobre o INSS fossem enviados ao STF. Interlocutores de Mendonça dizem que as providências são consequência de desconfianças sobre a atuação de Andrei Rodrigues, que começam pelo fato de ele ter participado da noite de uísque e charutos promovida pelo dono do Master, Daniel Vorcaro, em Londres.
Mais recentemente, o pedido de audiência do senador Jaques Wagner (PT-BA) a Mendonça no mesmo dia em que a PF pediu autorização para a operação contra ele no caso Master despertou suspeitas de vazamento. Imagens publicadas pelo GLOBO mostraram que Wagner e o diretor-geral da PF tiveram uma conversa em um evento no Palácio do Planalto naquele dia. Há meses, Mendonça também se queixava de ruídos na investigação do INSS. A troca do delegado do caso, sem comunicação a ele, foi interpretada como tentativa de esvaziar a apuração.
Outro foco de insatisfação foi a demora no envio do relatório sobre a quebra de sigilo de Fábio Luís da Silva, o Lulinha, no caso do INSS. O sigilo foi quebrado em janeiro e os relatórios só foram enviados no final de julho, após cobrança do ministro. O pedido de desmembramento dos casos de Lulinha para outros ministros também foi visto como tentativa de tirar a apuração do gabinete de Mendonça.
A desconfiança é mútua. No final de julho, Rodrigues enviou um ofício à Advocacia-Geral da União (AGU) pedindo um “remédio judicial” para rebater providências de Mendonça que, para ele, representariam intervenção na independência funcional da corporação. Entre elas estão o prazo de 60 dias para os policiais concluírem a análise do material apreendido, a juntada de todos os atos da investigação ao gabinete do ministro e o aviso prévio obrigatório quando houver afastamento de policiais da equipe.
Na PF, a ação de Mendonça também é apontada como ideológica. Interlocutores da corporação citam o trancamento de duas investigações sobre o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL) em 2024, que apuravam crimes de corrupção e peculato ligados a desvios na Fundação Leão XIII. Comparam, ainda, o tempo que Mendonça levou para aprovar a busca e apreensão sobre o ex-governador no caso Master, de dois meses e meio, com o da realizada sobre Jaques Wagner, de nove dias. Mendonça também estaria represando ações contra integrantes do Centrão já pedidas há semanas.
Nas palavras de dois superintendentes ouvidos pela coluna, a gota d’água para a nota foi a decisão de Mendonça de determinar o envio ao STF dos dados brutos. A crise vem sendo gestada há meses, e não será fácil para o ministro da Justiça pacificar os ânimos.