IA preocupa Fed: investimento dispara e alerta de bolha
Autoridades do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, começam a avaliar se o alto volume de investimentos que impulsiona a expansão do setor de inteligência artificial (IA) pode estar fora de controle e gerar riscos para o sistema financeiro.
Por enquanto, algumas autoridades que trataram do assunto pedem cautela, mas avaliam que uma crise financeira como a do setor imobiliário há 20 anos, ou a das empresas ponto-com, não parece próxima. A magnitude dos investimentos, os retornos incertos para uma tecnologia ainda não comprovada, o surgimento de estruturas de financiamento complexas e o aumento do uso de endividamento colocaram o financiamento da IA na agenda dos bancos centrais.
“Não vejo isso como uma situação do tipo bolha”, disse o presidente do Federal Reserve Bank de Nova York, John Williams, em entrevista à Reuters. “O que estamos vendo é um nível muito alto de entusiasmo em torno da nova tecnologia, em torno da IA”, afirmou Williams. Segundo ele, os investidores tentam, em tempo real, resolver um problema quase intratável: saber quão grandes serão os benefícios da IA. Williams disse que tentar responder a essas perguntas levará à volatilidade.
Williams afirmou que, apesar do aumento nos empréstimos para apoiar os investimentos em IA, isso está sendo administrado por empresas com lucros elevados. “Não estou tão preocupado com a estabilidade financeira decorrente da alavancagem no momento”, disse.
Torsten Slok, economista-chefe da gestora de recursos Apollo, afirmou em nota de pesquisa que a expansão dos data centers ainda é inferior à metade do tamanho do boom imobiliário, que atingiu seu pico em 6,6% do PIB em 2005. Ao mesmo tempo, o ritmo de investimento em relação ao PIB vem crescendo mais rapidamente do que o setor imobiliário cresceu no período que antecedeu a crise financeira global.
Momento de monitoramento
Outros membros do Fed parecem menos otimistas em relação ao risco da IA do que Williams. O presidente do Fed de Kansas City, Jeff Schmid, questionou em discurso na terça-feira se o setor está se tornando “grande demais para falir”, considerando como o setor está se financiando. Ele está preocupado com o fluxo de financiamento e como essas interligações poderiam ser um vetor pelo qual um problema começa em um estágio e depois se propaga.
Schmid questionou se o movimento circular de um compromisso contratual de um data center com um fornecedor de energia e com a comunidade que ele atende está ficando muito alavancado. “E se surgir uma faísca que acenda uma chama, o que vai acontecer?”, disse.
A presidente do Fed de San Francisco, Mary Daly, afirmou na quarta-feira que, se você apenas observar a taxa de crescimento e o volume de investimento no setor de IA, poderia facilmente concluir que isso é “muito preocupante”. Ela observou que muitos dos compromissos assumidos atualmente no setor de IA ainda são anúncios que não se concretizaram em ativos físicos, o que reduz o risco dos chamados ativos ociosos, que tendem a ser difíceis de lidar após uma correção ou retração do mercado.
Daly disse que o aumento crescente do endividamento para impulsionar o crescimento pode ser um problema. Para o Fed, “trata-se, na verdade, de montar um painel de monitoramento, não sobre o que aconteceu na crise financeira, mas sobre o que poderia dar errado e fazer com que a situação saia do controle”.