EUA perdem liderança em IA para a China
O debate sobre inteligência artificial nos últimos anos se concentrou em duas perguntas: as empresas de tecnologia americanas conseguem continuar inovando na fronteira tecnológica e o governo dos EUA tem uma estratégia para preservar a vantagem sobre a China. Essas questões foram superadas pelos acontecimentos. A pergunta agora não é se a China pode competir, mas se os EUA conseguem se adaptar rápido o suficiente para enfrentar um ecossistema de inovação chinês cada vez mais sofisticado, que avança em desempenho de modelos, custo, implantação, personalização, financiamento, padrões e alcance global.
Washington se vê respondendo a avanços chineses sucessivos em vez de moldar o ambiente competitivo. Isso deveria preocupar formuladores de políticas, executivos de tecnologia, investidores e aliados dos EUA mais do que qualquer pontuação em benchmarks ou lançamento de modelos. A competição está evoluindo para além de empresas individuais e se tornando um confronto entre ecossistemas de inovação.
Os avanços de DeepSeek, Moonshot AI, Alibaba, Tencent, Zhipu AI e MiniMax são frequentemente tratados como casos isolados. Vistos em conjunto, mostram que a China criou um ecossistema de IA capaz de produzir capacidades de classe mundial em várias empresas. Se esses avanços vêm de inovação original, otimização de engenharia, colaboração de pesos abertos ou destilação de modelos americanos é cada vez menos relevante. A realidade estratégica é que eles ocorrem em todo um ecossistema, enquanto os EUA avaliam uma empresa por vez.
Nos últimos anos, os EUA subestimaram o compromisso da China com o avanço tecnológico de longo prazo. Em terras raras, veículos elétricos, robótica, semicondutores ou IA, o erro analítico foi o mesmo: avaliar o progresso chinês empresa por empresa, descartando cada avanço como excepcional ou insustentável, enquanto Pequim seguia uma estratégia paciente para criar as condições de inovação e implantação em todo o ecossistema.
Os planos chineses de se tornar uma superpotência tecnológica foram estabelecidos anos antes das restrições do governo Biden. Essas medidas podem ter influenciado a direção e o ritmo da inovação chinesa, mas não criaram a trajetória estratégica. O anúncio da DeepSeek em janeiro de 2025 forçou muitos observadores a reconhecer uma trajetória que Pequim articulava há mais de uma década por meio de políticas industriais e planos quinquenais. O avanço não foi a estratégia em si, mas a prova de que ela começava a produzir resultados.
Essa abordagem pode ser descrita como “estadismo de ecossistema”: uma forma de competição estratégica que busca moldar o ambiente competitivo no qual as tecnologias são desenvolvidas, financiadas, padronizadas, implantadas e adotadas. Ela integra política industrial, finanças, inovação, padrões globais, currículos universitários, ecossistemas de desenvolvedores, diplomacia e expansão comercial em uma estratégia nacional coerente. A IA é a manifestação mais clara dessa estratégia, mas a mesma lógica existe em semicondutores, veículos elétricos, baterias, robótica, telecomunicações e manufatura avançada.
Os EUA e a China seguem teorias de vitória diferentes. A política americana enfatiza a liderança tecnológica na fronteira e a desaceleração do progresso chinês por meio de controles de exportação e restrições a computação avançada. Essas ferramentas continuam importantes. Pequim, por sua vez, foca em moldar o ecossistema da competição tecnológica global. Empresas chinesas facilitam a implantação, personalização e integração de suas tecnologias em múltiplos ambientes de computação. Reduzir o atrito em toda a pilha tecnológica pode se mostrar tão importante quanto melhorar o desempenho em benchmarks.
O discurso do presidente Xi Jinping na Conferência Mundial de Inteligência Artificial refletiu essa visão. Ao enfatizar cooperação internacional, governança, desenvolvimento de código aberto e participação de países em desenvolvimento, Pequim se posiciona não apenas como produtora de IA avançada, mas como arquiteta de um ecossistema tecnológico global alternativo. A estratégia é clara: proteger capacidades críticas em casa enquanto expande influência tecnológica no exterior. Como disse o secretário de Comércio Howard Lutnick no debate sobre a proibição de exportação de chips da Nvidia, ecoando o CEO Jensen Huang, o objetivo é “viciar” o resto do mundo em uma pilha tecnológica. Mas não está claro que a pilha americana seja a escolhida.
Essa estratégia também explica por que persuadir países a evitar a IA chinesa será mais difícil que a campanha contra Huawei e ZTE. Governos podem regular infraestrutura de telecomunicações, mas têm menos capacidade de determinar quais modelos de IA, bibliotecas de software e ferramentas de desenvolvedor serão adotados por milhões de programadores ao redor do mundo. A adoção de tecnologia ocorre cada vez mais de baixo para cima. Muitos governos agora avaliam Washington e Pequim de forma pragmática, equilibrando e fazendo hedge entre os dois, com decisões baseadas em segurança, acessibilidade, financiamento, capacidade tecnológica e oportunidade econômica de longo prazo. Países adotam ecossistemas de parceiros que consideram confiáveis, acessíveis e comprometidos com engajamento de longo prazo. A confiança e o financiamento são fatores determinantes nessa escolha.